quinta-feira, 19 de março de 2009

Junto ao rio

Eu e Pelarus caminhámos ao longo da larga alameda que descia da praça central da cidade até ao rio.

Dum lado e doutro da larga avenida árvores proviam sombra para os nossos passos lentamente cadenciados. A relva sob os nossos pés era fresca e repousante. O clima ameno de Sulus não exigia vestes elaboradas e pesadas, pelo que vestíamos apenas túnicas de fino linho e as nossas jóias distintivas.

Chegados à margem do rio, sentámo-nos num murete de mármore à sombra. 
E ficámos olhando as águas no seu contínuo fluir. Tal como a vida; em frente sem retorno.

A brisa corria, levando o silêncio consigo.

Pelarus despertou-me do meu torpor mudo, ao que respondi:
- Porque estou tão pensativo, meu caro?! Porque amigos meus sofrem lá longe. E meu coração chora com eles. 
Mesmo num mundo ideal a vida não é perfeita.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Exército

- Se há exército em Sulus?! Oh meu bom Pelarus, mas porque havia de existir um exército se ninguém quer fazer guerra?

- Para defesa?! Mas defender de quê? De quem? Sulus não tem inimigos nem pretende vir a tê-los. Em Sulus não há militares, há monges! - concluí sorrindo.

Contudo há em Sulus algo que se pode equiparar a um serviço militar obrigatório; trata-se dum serviço formativo de iniciação dos jovens e que alguns assumem como carreira para o resto de suas vidas. 
Todos os jovens têm que cumprir um período de serviço monástico, em mosteiros longe das suas localidades de origem, portanto afastados do contacto com familiares e amigos. 
Durante esse período não só vivem em reclusão com rotinas monásticas, mas também são incumbidos da prestação de serviço comunitário. Assim se completa a formação dos jovens, iniciada desde cedo no sistema de ensino de Sulus. 

A prioridade dos cuidados de todos em Sulus é para a educação desde a mais tenra infância. Aqui todos são instruídos a viver em comunidade. Todos têm um contributo válido para a comunidade e a todos é dada a oportunidade de prestar esse contributo. 

Todos são iguais em direitos e oportunidades perante a comunidade, pelo que não há sentido de exclusão por más práticas. Os prováveis prevaricadores são objecto de mais atenção e cuidados por toda a comunidade, pelo que não existe aqui o estatuto de pária.

- Crime?! Se há crime em Sulus? - continuei respondendo às questões postas por Pelarus - Mas, meu querido, por acaso já viste em alguma parte de Sulus qualquer indício de insegurança?

Crime é um termo não utilizado por aqui. Podem acontecer comportamentos mais desajustados por parte de algum cidadão, mas logo a comunidade tratará de entender o porquê desse desajustamento e lidará com a situação do modo mais digno e conveniente. E isto significa com respeito e bonomia. 

Aqui respeita-se a dignidade humana acima de tudo. Tal exige uma co-responsabilidade de todos pelos comportamentos de cada um dentro da comunidade. 
A sociedade e a cultura de Sulus foram desenvolvidas segundo esse princípio soberano. Toda a atenção dos dignitários administrativos focaliza-se na preservação desse ideal primordial.

A todos é providenciado o essencial para uma existência digna, mesmo sem que para isso tenham que trabalhar. Quem quiser adquirir bens supérfluos, terá então de se esforçar mais para acumular bens próprios, mas isso não é visto como uma supremacia de estatuto social. Como já falámos anteriormente os responsáveis por cargos administrativos são impedidos da propriedade de quaisquer bens pessoais. 
Ademais a acumulação de riqueza é interdita em Sulus, pelo que a partir de determinados excedentes os bens acumulados passam para o usufruto da comunidade.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Quem Governa?

- Excelente questão essa, meu bom Pelarus. - sorria, enquanto lhe passava o braço sobre os ombros e caminhavamos pela praça principal de Sulus - "Quem governa?" - repeti a pergunta que ele me havia feito.

Ora essa é uma questão que nos pode levar a reflectir um pouco. Embora Sulus seja a capital dum reino, logo uma monarquia e todos os poderes estejam concentrados na pessoa do Soberano, não se pode dizer que seja uma Monarquia Absolutista. Eu diria que em Sulus, assim como por todo o Reino, cada um se governa a si.

O Soberano, ou Rei como lhe queiras chamar, é acima de tudo a personificação de todo o povo de Sulus. Ele é a pessoa em que cada um de nós se revê. É também ele o zelador do bem estar de todos os seus súbditos. Rei ou Rainha, pouco importa. No presente temos um Rei, mas o título é assumido por herdeiros e herdeiras.
Falando de herdeiros e reis, o Herdeiro do Trono de Sulus não tem de ser obrigatoriamente filho do Soberano em título. O Rei pode nomear o seu sucessor fora da Casa Real, bastando para tal que esse sucessor receba uma instrução preparatória para o governo, tal como a que os Príncipes de Sangue recebem. Mas geralmente é sempre o primogénito real o Herdeiro e, desde bem novo, recebe uma instrução especial, para no futuro assumir o posto de Soberano.

Em Sulus governa o Rei no interesse de todo o povo. E podes ver isso aqui na Praça do Palácio.
- Exacto, notaste bem. O Palácio Real está aberto e sem guardas. Qualquer um pode entrar no palácio.
- Porque não há guardas?! Ora, meu querido, porque todos os habitantes de Sulus zelam pelo bem estar do Seu Soberano, pois disso depende o seu próprio bem-estar. Um Soberano justo e guardião do bem-estar do seu povo não necessita de guardas armados para o proteger. O Povo é a sua melhor protecção.

- Corrupção?! - não pude deixar de dar uma risada por causa da interpelação do meu amigo. - Oh, meu caro Pelarus, isso não existe em Sulus!
Como?! Uma das primeiras medidas para o evitar é a de que ao Soberano e a toda a Casa Real (chamamos Casa Real à família em primeiro grau do Soberano) não é permitida a posse de bens pessoais. Assim o mesmo acontecendo com todos aqueles que desempenhem cargos ligados à governação e administração do Reino. Além disso a acumulação de riqueza excessiva não é permitida em Sulus.

- Não, não receamos que um Rei se torne despótico e impopular. Não esqueças que não há guardas à porta do Palácio Real. - ambos rimos - Demais o Rei não governa sozinho. As suas decisões são tomadas depois da consulta dum Colégio de Sábios e duma Corte composta por representantes de todas as cidades do Reino. Além de que o Rei tem uma agenda destinada a receber directamente os cidadãos que se lhe queiram dirigir pessoalmente. Para tal o Rei se desloca periodicamente por todo o Reino.

No Reino todos têm garantido o direito à sobrevivência. Isso implica que nem precisamos de trabalhar para podermos nos alimentar, ter uma morada e sermos assistidos em caso de doença. Em Sulus cada um é livre de se dedicar à função que preferir. Ninguém é coagido a trabalhar para sobreviver. Há trabalho para todos, os que queiram trabalhar e o empresariado é incentivado e apoiado pelo Estado, pelo que os lucros excedentes da actividade económica revertem a favor do Estado, logo a favor de todos.

Mas a base de tudo isso é a Educação. O pilar fundamental da sociedade de Sulus é a Educação.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Seixo Branco

estava languidamente deitado ao sol...

Sentia o seu calor vir até mim, tocar-me a pele com ardor, afundar-se no meu corpo, enquanto cobria com uma cortina incandescente os meus olhos cerrados. A areia, debaixo de mim, sustinha a lassidão do meu abandono, inerte, sem um gesto que me despertasse daquele enlevo.

Perto de mim marulhavam as águas num convite contínuo. Oferecendo-se servis aos meus devaneios...
eu era um devaneio.

Levantei-me... ergui-me da languidez que me enovelava, olhando a extensão de água à minha frente, a sua superfície de jade ondulante. Lavado de qualquer expectativa movi o corpo até ao mar e mergulhei a minha nudez na massa morna e líquida, que de imediato me abraçou...

Nadar é sentir um vento mais espesso jogar com massas e volumes. 

A liberdade de movimentos levava-me além de mim. Eu era ali, no meio daquele turbilhão de bolhas e remoinhos, com que expressava a minha alegria.

Deixei-me flutuar apenas... deitado de costas na superfície das águas, o sol cintilava no peito que arqueava ritmadamente, a pequena ondulação massajava-me, empurrando-me para a praia, onde as pequenas ondas iam-se espraiando acariciadoras. O areal, enfeitado de cacos de conchas e pedrinhas, estava ali como tudo o resto. 
Eu também.

Molhado, ergui-me e caminhei. O céu era quase branco, no esplendor do meio-dia de verão. Vi um pequeno seixo branco e sentei-me junto a ele. Não o toquei, mas podia sentir a superfície lisa, polida, opaca, abaixo da qual o sol tentava infiltrar-se. Sentia-lhe a massa espessa, cristalina, inerte, mas plena de matéria. Sentia-lhe a presença ocupando espaço, correspondendo às leis da física e delas dependendo. Senti o seu lugar no universo, entre a imensidão de coisas que o compõem. Senti-me nele, ocupando a sua forma, o seu volume, a sua massa. Desempenhava as suas funções e colhia os seus eventos. Senti conhecê-lo, aquele pequeno seixo branco ao lado do qual me sentara.

Depois voltei a deitar a minha nudez ao sol, desfrutando de tudo aquilo que era presente, ali, naquele momento.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Explicações

Por toda a caverna o coro foi aumentando de intensidade, já que as restantes criaturas, dispersas pelos vários nichos, juntaram as suas vozes à longa e ondulante melodia. 
Entretanto o globo no centro, ia-se tornando mais e mais brilhante, até eu e Pelarus sermos obrigados a desviar o olhar. Esse fulgor aumentou até se dissipar em miríades de pequenas luzes, que lentamente, flutuavam até às paredes rochosas e nela se diluíam, como se as tivessem penetrado. 

Quando voltámos a olhar de novo para o centro da caverna, já o grupo de dançarinos se dirigia no mesmo passo elegante para um dos túneis que desembocavam ao nível do chão da gruta. 
O coro do anfiteatro saia ordenadamente por um túnel do lado oposto ao daquele por onde nós entráramos. Mas a mesma criatura que nos havia trazido até ali não os acompanhou, tendo abandonado a sua posição para de novo se vir juntar a nós. 

"Questões. Muitas questões." afirmou na sua doce voz, com um sorriso amigável e cheio de ternura.
"Sim" respondi, aproveitando a ocasião para apresentar algumas das minhas dúvidas. "Quem sois vós? Porque nos trouxestes até aqui? O que significa o que nos mostraste?" Teria muito mais a perguntar, mas me pareceu que estas seriam as mais prementes.

"Não necessitas de falar, pois eu te escuto mesmo sem articulares as palavras. E nada tendes a recear de mim ou de qualquer um de nós." Falou tentando apaziguar algum receio que eu sentia pelo inusitado de toda aquela situação. Depois acrescentou: "Sim e não. Eu não posso escutar os teus pensamentos, mas posso escutar as palavras que pretendes proferir sem que as digas. No entanto sinto o teu receio e o de Pelarus também." Sorria carinhosamente enquanto falava, olhando meigamente para Pelarus "Ele está bem mais impressionado que tu." 

E estendendo a sua longa mão alva de dedos esguios, segurou amigavelmente a mão de Pelarus, ao que este correspondeu com um sorriso largo e descontraído. "Pronto! Já estás mais tranquilo." 
Depois continuou; "Nós somos o vosso amanhã, o vosso futuro." E perante a minha incompreensão, completou, "A vossa humanidade irá se extinguir, enquanto espécie, mas uma nova espécie humana já se está desenvolvendo para habitar a Terra."

As ideias corriam na minha cabeça e ela, ou ele, ia respondendo às minhas questões antes de eu as verbalizar. "Por enquanto apenas habitamos no interior da Terra e no fundo dos oceanos. Seria arriscado para vós o nosso aparecimento prematuro. Tudo se tornaria muito tumultuoso, entre vós. Não pretendemos interferir nos vossos destinos."

Eu e Pelarus escutávamos silenciosos, absorvendo cada palavra. "A vossa espécie extinguir-se-à naturalmente. Nós apenas tentamos salvaguardar algum equilíbrio natural no planeta para quando chegar o momento de o reivindicarmos à superfície. Foi um desses trabalhos que acabastes de presenciar." E com um mais largo sorriso, tranquilizou o meu sentimento de alarme, "Não haverá confrontos da nossa parte e a vossa espécie já estará em tal estado de declínio que os vossos últimos membros terão um fim tranquilo sob o nosso cuidado."

"Quanto ao planeta... A Natureza sempre se regenerou e a civilização que estamos desenvolvendo insere-se perfeitamente nos sistemas naturais do planeta." Fez uma pausa, em que podíamos ouvir o silêncio cristalino da imensa caverna, agora vazia. "Tal como vós tínheis melhores capacidades de adaptação física e mental que as espécies humanas anteriores a vós e desenvolvestes capacidades tecnológicas notáveis, nós temos maiores capacidades metabólicas e mentais que vós e que nos permitem o desenvolvimento duma civilização mais elevada em termos científicos e principalmente éticos."

"Agora vou vos acompanhar até à entrada dos túneis, onde os unicórnios vos esperam, para que regressais a Sulus."
"Conheceis a cidade?" entusiasmei-me a perguntar.
"Sim, conhecemos. É um bom exemplo de como deveríeis viver. Um bom modelo de cidade." E mais não disse, enquanto nos guiava de volta ao mundo exterior.


Nota: Este é o quarto e último texto, consecutivo na apresentação neste blog, dum pequeno relato designado sob o título geral de "A Dança das Cores"; embora cada texto tivesse recebido um título próprio.

domingo, 19 de outubro de 2008

A Dança das Cores

O túnel por onde haviamos descido desenbocava numa imensa caverna, encimada por um tecto abobadado altíssimo. Lá dentro encontravam-se inúmeras criaturas como aquela que servira de nosso guia, todas elas envergando as mesmas túnicas luminescentes cujo suave fulgor iluminava toda a caverna, na sua imensidão.
Saíramos do túnel para uma plataforma rochosa a meia altura da caverna, na qual havia  uma área que se assemelhava a um pequeno anfiteatro e onde se alinhava um grupo de criaturas, que parecia ignorar a nossa presença, tal a intensidade de concentração que transparecia dos seus rostos invulgares. 

O nosso guia encaminhou-nos para um nicho na parede rochosa, perto da boca do túnel, mas do lado oposto àquele onde se encontrava o grupo do anfiteatro. As restantes criaturas presentes encontravam-se dispersas em pequenos grupos, pelo solo da caverna em nichos nas paredes íngremes da mesma, como aquele onde fôramos colocados eu e Pelarus, ou noutros nichos dispersos a várias alturas das paredes íngremes.
Após se assegurar que estávamos convenientemente instalados e de que entenderamos que não deveríamos abandonar aquele posto, voltou-se com um ligeiro sorriso e foi tomar o seu lugar junto do grupo do anfiteatro, assumindo como eles uma atitude de profunda concentração.

Passados alguns momentos a luminescência das túnicas diminuiu, o que levou a que a imensa caverna ficasse numa semi-obscuridade, enquanto um som cavo e crescente se ouvia, fazendo vibrar o âmago das nossas almas. Pelarus procurou a minha mão com a sua e ficámos segurando com firmeza a mão um do outro. Os nossos olhos esbugalhavam-se com o que se desenrolava perante nós.

Um fulgor, de início mais fraco mas depois ganhando progressiva intensidade, provinha do tecto abobadado da caverna. Sete criaturas pairavam no ar junto ao tecto, ao contrário das restantes que já viramos, estas apenas se vestiam com um fato único da mesma matéria luminescente que as cobria por completo, à excepção da cabeça, como os outros. Agora podíamos observar a sua fisionomia, já que estes fatos aderiam ao corpo como uma segunda pele e, tal como eu suposera, os seus corpos eram esguios, com membros longos, em que os braços se prolongavam em mãos finas de dedos compridos e delicados. Contudo não se notava alguma particularidade anatómica que pudesse indicar um dos sexos humanos. Os seus peitos eram desprovidos de seios e no baixo ventre não se notava algum vulto que indicasse a presença de genitais masculinos. Eram assexuados?!

As criaturas levitantes pareciam massajar, ou acariciar, a abóbada da caverna, o que fazia com que desta brotasse uma substância amorfa e moldável, que elas puxavam e esticavam enquanto iam descendo em direcção ao solo. Assim uma tela imensa e branca se formou, quando as criaturas atingiram o chão da caverna onde, com idênticos gestos massajadores, firmaram a tela. Depois, para nosso maior deslumbre, passaram a voar em vólutas e piruetas, como se estivessem num ambiente sem gravidade. Simultaneamente os seus factos iridizavam em todas as cores do espectro visual.

No decurso da dança aérea, por vezes os bailarinos avançavam contra a tela e puxando-a, empurrando-a, perfurando-a, iam-na moldando. Em simultâneo os seus fatos iam tomando uma cor que era transmitida à área trabalhada pela dançarina, levando a que a inicial tela branca se tornasse num objecto multifacetado e multicor. Por vezes um deles rasgava um pedaço que esticava até ao chão ou até a parede onde o fixava com os mesmos gestos de fricção das mãos contra a rocha.

Perante nós uma imensa teia multicor ganhava forma, enquanto o som cavo de início ia modulando em cambiantes tonais, mais ou menos graves, soando como uma longa e arrastada melodia.
Através dos rasgões na superfície da tela, os dançarinos entraram naquilo que se assemelhava a um casulo, que tinham moldado no centro da imensa teia. O coro no anfiteatro, ao nosso lado, baixou a intensidade do seu cântico até ao silêncio, enquanto do interior do casulo um cântico mais agudo e mais intenso se elevava.

Com o aumento da intensidade do cântico o casulo iluminava-se mais ainda, tomando uma forma esférica e ganhando as cores e padrões do globo terrestre, libertando-se das mangas de tela que o prendiam às paredes e ao chão da caverna.
Então o coro da plataforma entoou novo cântico, juntando-se em contraponto com o cântico dos dançarinos no interior do globo, que começou a girar sobre si, tal como a Terra.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Por Grutas e Cavernas

Desmontamos dos nossos corcéis, à entrada da enorme gruta e avançámos para o seu interior.

A caverna alongava-se na forma dum túnel e, quando os nossos olhos se habituaram à semi-obscuridade, pudemos distinguir a alguma distância da entrada um vulto humano.
Era alguém com estatura muito elevada e esguia, vestido com uma longa túnica, que lhe cobria completamente o corpo, mesmo o longo pescoço, deixando apenas a cabeça descoberta. Uma cabeça calva e alongada, de feições humanas, mas em que a parte do crânio era dum volume superior e mais alongado que o comum entre nós, humanos. Os seus olhos eram grandes, alongados e dum olhar intenso e profundo, contudo sem nenhum aspecto de agressividade. Não via no personagem algum sinal que indicasse não ser humano, embora em nada se assemelhasse a qualquer um de todos os tipos de humanos que eu já vira.

As mangas da túnica eram igualmente longas, escondendo-lhe por completo as mãos. Era uma peça de vestuário invulgar, pois dela parecia e emanava mesmo, uma leve luminescência suavemente esverdeada, que se reflectia nas paredes da gruta.

Embora de fisionomia esguia, tudo na sua figura ostentava uma dignidade e majestade harmoniosas e benevolentes. Sorriu-nos com um gesto convidativo a que se lhe juntassemos e, ao ver que assim o faziamos, virou-se e dirigiu-se para o interior da gruta.

Aquilo não era andar, aquilo era deslizar! O seu caminhar era tão elegante e ao mesmo tempo tão rápido, pois pela sua altura fácil seria adivinhar umas longas pernas debaixo daquela túnica, que eu e Pelarus tivemos de estugar o passo para a acompanharmos.

Eu falei «a acompanharmos», contudo nada parecia indicar o sexo do nosso guia. Toda a figura era andrógina no seu aspecto e modos. E demais nem ainda lhe ouviramos a voz, bastara apenas a sua postura e o modo de comunicar com gestos brandos, para que a seguissemos.
Mas seria isso mesmo relevante? A determinação do sexo da criatura que encontraramos e que acompanhavamos? Creio que em nada seja relevante para a narrativa, ou para o que se pudesse vir a passar.
Constrangido que estou pela gramática portuguesa, enquanto escritor lusófono, irei livremente optar por ambas as designações, tanto feminina como masculina, nas referências à criatura.

E o caminho se fazia longo, sempre descendo, cada vez mais para o interior. Túneis que desembocavam em cavernas vazias, umas mais amplas que outras, mas onde em todas a leve luminescência da túnica do nosso guia revelava as belas formações geológicas de estalagtites e estalagmites.
Numa ou noutra gruta encontrámos pequenos lagos, ou mesmo ribeiros escorrendo céleres para desaparecerem por algum túnel escavado ao longo de séculos e séculos.
Noutras ainda podiamos ver a iridiscência de cristais de rocha, que se projectava em miríades de pontos multicolores pelas paredes rochosas. Efeitos dignos dos mais elaborados vitrais, que alguma vez a criatividade humana pudesse conceber.

Por fim, a insigne criatura que nos precedia, voltou levemente a cabeça na nossa direcção e pela primeira vez lhe ouvimos a voz: "Estamos chegando." Anunciou com um brilho doce no olhar e um leve sorriso nos finos lábios da pequena boca. Eu quase tropecei num afloramento rochoso e Pelarus agarrou-se ao meu braço, como se estivesse tentando confirmar que não sonhava.

A voz era suave como um murmúrio, mas perfeitamente audível. E, mais intrigante ainda, parecia ressoar dentro de nós; como se as nossas almas a ficassem repetindo e repetindo.